Posts Tagged ‘poesia’

Verdades do Rio

fevereiro 1, 2010

Por saia poética/ Carla Andrade

Peneire-me com a sua voz
De um lado, prometo deixar
carcaças grávidas de idéias
Do outro, sementes
podres de ignorância.

Depois, me jogue no rio
mais transitório que existir
em uma manhã de pálpebras entreabertas.
Deixe fluir os pés fincados das minhas lembranças.

Aí, com ternura, observe como a água
arrasta os galhos da minha perseverança.
Corra para a outra margem
e veja a minha bóia de sonhos e sua dança.

Quando eu parar em alguma pedra safada,
com síndrome de julgamento,
sopre, sem pressa,
os calos dos meus pensamentos.

O que quero é simples.
Caminhar de mãos dadas na
varanda da vida, em direção ao mar.

Anúncios

Recital na mata

outubro 2, 2009

fazenda 

 

 (Por Carla Andrade )

Menina vive a cutucar
poesia nos bichos do arraiá.

Oferece os dedos como cacimba
para um filhote de tangará.
Como água de açude mole,
aninha cotia enquanto toma gole
de chuva de jatobá. 

E no miolo dos olhos da menina, a treveliar,
vive uma girina buchuda e
um piolho de caburé sem calcanhar.

 E no pé do ouvido da danada
canta  sabiá adestrado,
assobia ar de cigarra,
enquanto bicho de pé  fica embuchado.

 De noitinha, na distração com os bichos,
grilo faz birra para pular 
e seriema desfila pernas antes de banhá.

Menina se veste de lamparina,
muito vagalume engradado.
Assanha morcego e aranha
debaixo de romaria de estrelas.

 Depois que descansa machado
no canto da sombra de uma goiabeira,
depois que desmancha farinhada,
no canto da sua língua faceira,
sobra tempo para mais brincadeira. 

Agora, dorme machado, dorme flor de sucupira,
amanhã tem mais poesia.
Dorme menina prenha de sabedoria,
 alumiada de mata.

A utilidade da poesia e a manicure

setembro 10, 2009

poesia_acerca_do_mamilo

(por saia emprestada)

Quem escreve poesia e já tentou vender seus queridos livros vai entender muito bem o que minha amiga Angélica Torres quis dizer com o texto “A menos valia do verso”, publicado logo abaixo. Ao oferecer meu livro de poemas para alguém me sinto como se tivesse vendendo guarda-chuvas em Brasília em plena seca de setembro.  Se a pessoa cisma de lê-lo na minha frente, sei que, muitas vezes, vai apenas correr os olhos no prefácio e na primeira poesia, mostrando certo ar falso de respeito. Em seguida, irá folheá-lo com pressa e ficará feliz ao constatar que ele é pequeno. Sei que vai me devolver o livro e dizer: legal. 

Coleciono histórias engraçadas sobre as minhas investidas no mercado editorial com esse produto tão agressivo. Já sorteei alguns exemplares em um bingo beneficente em um lar de velhinhos e vi o ganhador olhando atravessado o prêmio do seu colega. Outro contemplado brincou com o nome dele, Conjugação de pingos de Chuva, e saiu conjugando: Eu pingo, tu pingas, ele pinga e por aí vai. Gramática ou livro de poesia? Mas, bem, vamos ao que interessa.

Momentos_Poesia

A menos valia do verso:  

“Apertada de grana, usando métodos de artista popular para dar conta, em dia, das contas da família, resolvi propor à manicure uma permuta. Eu, uma guerreira, mas cuidadosa com a fachada, sabia o gosto dela por poesia. E era fã da moça por causa disso. Cheguei segura, sem qualquer constrangimento. – Sandra, você faz o pé pelo mesmo preço que custa o meu livro (era R$ 12): topa fazer numa troca desta vez?

Que desconcerto, ao ouvi-la responder um sonoro não, com a maior naturalidade. Disfarçando o sorriso desbotado, insisti. – Mas você me disse que gosta de poesia! Achei que seria– É, mas não dá pé, não – ela me cortou, de alicate em punho, sem olhar. Mais abestada, que indignada, dei meia-volta, forçada a raciocinar aritmeticamente – o que nunca foi o meu forte – até o verso do que é esse capitalismo desenfreado que nos avexa em tão dispares situações.

 2007051900_blog_uncovering_org_letras_drummond_poesia_morte_leiteiro_estatua_copacabana

Que a poesia não vale exatamente dinheiro a gente sabe desde o jardim de infância. Mas pelo menos em equivalência me parecia possível pensar. Afinal de contas, fazer versos é um trabalho quase tão pesado quanto ficar curvada sobre mãos e pés alheios, tirando seus excessos de unhas, cutículas, peles, calos, sujeiras… ou como recolher o lixo urbano diário…ou como costurar, ou como cozinhar, ou preparar aulas e corrigir provas…Enfim, escrever poesia e dar a cara a tapa publicando-a, é um trabalho como outro qualquer. Como assim não dá pé? Como é que não vale nada? Por que tem serventia limitada, desvalorizadas, apesar de todo mundo se servir do charme dela, de algum modo, em algum momento, social, romântico, político, pessoal, eteceteretal, da vida?

Tudo bem que Jean Cocteau tenha ponderado, “a poesia é indispensável. Se ao menos soubesse para quê…” Que o grande Manoel de Barros a ponha no patamar das coisas que servem para lixo. E que tantos outros poetas, pensadores, jornalistas, leitores discutam a sua nobre inutilidade. Que endeusem sua despretensão, sua fina altivez para com os valores materiais da existência humana. Mas, caramba, ela se torna um produto, seja manufaturado, seja industrializado, ao ser formatada em uma publicação.

Cismada, peguei o livro recusado e contei os poemas. –49. E vi que, dividindo o preço por eles, cada um valeria muito poco! O único problema é que o valor colocado pela editora ou pelo próprio autor diz respeito ao custo de edição, do papel, da tinta, da impressão, da distribuição. Jamais aos versos em si. Tenham ou não valor literário.

Cheguei então à conclusão de que poesias valem menos zero em qualquer papel e moeda. É verdade! Não é que a Sandra tinha mesmo razão? Ela, Manoel de Barros e a torcida do Flamengo. Poesia não vale o verso dela própria. Nem cara nem coroa. Não tem poder de barganha. Não vale uma unha do pé. Não pode ajudar na economia do orçamento doméstico com a vaidade. Que dirá com a cesta básica! Tem que ficar deitada em berço esplêndido, ajudando a manter a fama de magnânimo do poeta desempregado, amarelo-esverdeado, tuberculoso, maluco beleza, alheio à realidade da era capitalista em que achou de encarnar.

Que grande lição me deu a manicure com a sua sincera noção do valor real do trabalho, que eu não tinha até então. Decidi parar definitivamente de contentar o mestre pantaneiro – embora eu também, nunca, jamais, em tempo algum, tenha me dedicado à poesia, de olho em pesos cubanos, dólares e euros.

Sai de fico com a impressão de ouvir alguém dizer, “vai trabalhar, vagabundo”. Quem sabe tento o universo musical. CDs são mais queridos e respeitados. Além do mais, compositores, bem ou mal, têm o Ecad por trás.”