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Amor avesso

novembro 10, 2009

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(por saia da dolores)  

Acordei com ele me fuçando por trás como nunca havia feito antes. Decerto alguma coisa muito grave havia se desprendido de seu passado, pois aquela leveza não era comum. Seu rosto de menino deslizava sobre minhas pernas e parava seguidas vezes até que eu pudesse sentir o calor da pele. Fiquei quieta todo o tempo. Achei que não saberia retribuir aquela ternura subitamente descoberta. Sua respiração quente entre as coxas ascendia um fogo líquido que devia ser contido e prolongado o quanto pudesse.

  Percebi que, de certo modo, ele chorava. Seus olhos estavam quentes e úmidos e seus lábios tão secos que aderiam à pele.  Seguidas vezes ele me lambeu por trás e eu senti um corte na alma por não saber reagir. Fiquei quieta todo o tempo, mas ele sabia que eu acompanhava cada movimento. Os músculos tremiam e repousavam, como se não soubessem se comportar. Aos poucos foram descontraindo. Senti minha pulsação aos saltos ali atrás. Parecia que queria retribuir os beijos que recebia. Foi quando não me contive mais e comecei a mexer vagarosamente com os quadris.

Ele apertava os lábios como se fosse me comer com a boca.A cada movimento, eu me erguia mais e me oferecia inteira aos seus beijos. Suas mãos subiam e desciam pelas coxas e pelas costas. Seu rosto subiu beijando e lambendo até o pescoço. Apertou os bicos dos seios e começou a penetração. Lenta e pausada, dolorosa e apaixonante. Senti a dor se espalhando como uma mordida por dentro. Cada movimento do corpo aumentava a penetração fazendo a dor ressurgir e transformar-se em prazer dilacerante. Sentia-me surrada ao contrário, amada ao avesso, lambida por dentro. Era como se quisesse beijar-me a alma e por isso tentava sucessivos mergulhos alucinados. Em tudo eu era cúmplice. Ergui os quadris e comi-o com gula, com uma fome insaciável. Gritei e comecei a gemer.

 As lágrimas brotaram no meu rosto. Ficava quieta para senti-lo deslizando para dentro e para fora. Depois me contorcia nas entranhas e gemia. Ele me puxava pelos quadris, com força, contra seu colo. Debruçava-se beijando as costas, primeiro vagarosamente, depois forte até morder espalhando a dor. Minhas lágrimas se desprendiam até arrancar soluços. Percebi que estava expulsando fantasmas que me acompanharam desde a infância. Fantasmas celibatários que agora se desmanchavam em lágrimas inofensivas. Expulsos pelo pecado. Ruborizados e impotentes fantasmas da infância. Soubesse antes o que suas máscaras ocultavam e já os teria enfrentado desde o primeiro dia.

 Chorei pela descoberta do prazer irradiado do ventre para os extremos. Pelo despertar do impulso animal que supera o medo. Pelo pecado que criei e que haveria de transformar-me continuamente. Chorei, gritei e amei até que ele explodisse percorrendo-me por dentro. Até que seu corpo desmoronasse em febre. E senti um amor doce e moreno, tão intenso e avesso que desconhecia os limites do medo.

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