As mentiras da maternidade

novembro 29, 2009 by

por minissaia

Pausa nos relacionamentos românticos. Sei que a maioria dos leitores está em outra fase de vida, mas eu preciso escrever sobre como as mulheres são enganadas em relação à maternidade. Para variar, nós somos levadas a carregar uma tonelada de culpa por não nos encaixarmos perfeitamente naquilo que nos dizem ser o comportamento NORMAL de uma mulher. Então, vamos lá:

1. nem toda mulher – mesmo que feliz pelo fato de ver o teste positivo – vai virar a encarnação da Mãe Natureza no segundo que souber que está grávida. elas não vão ficar loucas para usar aquelas batas largas e calça jeans com elástico na cintura, falar mansinho, e ficar imediatamente interessadas em cores pastéis. eu fiquei super feliz com minha gravidez. mas também fiquei puta porque não poderia beber nem fumar mais.

2. o amor de mãe, assim como todo e qualquer tipo de amor, começa com o encantamento, para, depois, através do convívio e da troca, se fortalecer e virar um amor profundo. quando o nenê nasce, ele não sabe quem você é, ele não olha na sua cara, ele não ri, não te chama de mamãe, enfim, não te dá nenhum feedback de que vocês se amam. além disso, ele não agradece por você estar com os peitos em carne viva e acordada durante noites a fio. assim, as mães que não sentem aquele amor materno forte, sentem-se como as criaturas mais sacanas do universo, quando, na verdade, deveriam estar se dando uma chance de conhecerem ao próprio filho. porque é isso que vocês, mães e filhos, terão que fazer: se conhecer à medida que se amam e se amarem na medida em que se conhecem.

3. as vontades da solterice maternal não desaparecem do dia para a noite. talvez não desapareçam nunca (ainda bem!). por isso, algumas vezes aquela criaturazinha vai te dar uma raivinha, porque será o motivo de você não poder encher a cara com as amigas, sair para dançar a noite toda ou fazer uma viagem rápida espontânea. essa raivinha é normal. não quer dizer que você seja má mãe, só quer dizer que a adaptação é difícil e leva um tempo.

4. mesmo os filhos planejados vão virar nossas cabeças e nossas vidas de cabeça para baixo! somos uma geração de mulheres ilimitadas, trabalhadoras, que podem farrear com menos medo de julgamento. podemos pagar nossas contas, sair sem dar satisfação a ninguém e, mesmo as casadas, têm liberdade para curtir a vida e preservar sua individualidade. bebês matam essa individualidade. ninguém mais te vê numa festa de família sem perguntar – antes mesmo de te dizer “oi” – “cadê o bebê?”. quando você está com o bebê no carro e passa pelo shopping, não vai conseguir falar “ah, vou dar uma voltinha lá”, sem pensar se está com o carrinho, se dá conta de tirar o carrinho sozinha, colocar o nenê, esperar o elevador (é, filha, escada rolante já era!) e se vai dar para passar entre as araras da Renner ou da C&A com aquele carrinho trambolhão. isso pira qualquer mulher. e lá vem a culpa. calma, se dê tempo de ficar chateada e triste. isso não é, necessariamente, depressão pós-parto, mas é sempre bom fazer terapia. e a maturidade vai fazer você aceitar isso um pouco mais e vai te dar estratégias para ter um tempo só para você.

Por enquanto, é só. Com certeza, vou complementar esse texto aos poucos. Inté.

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Sexo, vai rolar?

novembro 19, 2009 by

 

(por saia apertadinha)

E se ele souber que não estou sendo o que sou? E se sorrir meio maroto, como quem tem mais dúvidas que certezas, e ele perceber que faço gênero? Bom, deixa para lá. É melhor procurar meus documentos na carteira: carteira de identidade, carteira de estudante (mas não sou mais estudante), CPF, cartão de crédito. Ufa! Ufa! Acho que ainda resta um pouquinho de mim nesta mesa. E se ele perceber que não sou tão segura quanto pareço? Ai, meu Deus! Vou sorrir novamente. Ele gostou muito quando joguei a cabeça para trás, soltando um sorriso curto, mas gostoso, enquanto ele abria a porta do carro. Será que vai perceber que menti descaradamente? Eu não vi o filme comentado por ele. Não conhecia os atores, muito menos aquele diretor de nome esquisito – acho que era russo, pelo menos terminava em “evisk”. Balancei a cabeça lentamente com aquele sinal de positivo, ele teceu comentários da vanguarda do cinema. Deixa-me colocar a máscara no lugar novamente. Upsss! Derramei o molho shoyo. O que faço? Banco a mulher desastrada ou a fresca? É melhor a despojada, que não liga para o molho preto, escorregadio, em sua roupa branca. Piadinha de molho shoyo vem à minha cabeça, por favor! – ÔOO, garçom, me vê uma porção de guioza. Escapei por pouco! Mais um teste.

Ofereço-me para pagar a conta? Mas se ela quiser dividir? Ela é bem feminista, melhor bancar o moderno. Ah! Quando ela sorriu com aqueles dentes enormes, tive que mentir. Falava tão gostoso do mar, do cilindro de oxigênio. Ai que falta de ar. Preciso parar de fumar, meus dentes estão amarelos. Falava das viagens. Não pude resistir. Falei daquele bendito curso de mergulho que jamais fiz.  Na verdade, nado mal pacas! E agora??!!! Ela gostou do assunto de mergulho. Vou ter que decorar o nome daqueles instrumentos pesados. Vou falar do meu doutorado ou da minha primeira viagem à Itália? Não, é melhor pedir um copo de saquê quente. Assim, podemos ficar em silêncio por um bom tempo. Ontem, ao telefone, ela me disse que o silêncio é bem confortável. Lembrou até de uma cena do filme Pulp Fiction quando Uma Truman falou do tal silêncio. Ela é gostosa. A Uma também. Ela é charmosa, deve ter muito homem na parada. Mas eu posso, afinal, estou fazendo doutorado. Ela gosta de literatura, eu já li alguns clássicos. Temos muito em comum, talvez.  Ás vezes, ela parece inteligente, mas tão insegura. Ishhhhhhhhh! Estou concordando muito com ela. Melhor ser mais intransigente, mulher gosta de opiniões fortes e difusas. Acho que estou sendo taxativo. Ela é tão única, sem comparações.  A mão dela é tão pequena, frágil – vontade encaçapá-la entre meus dedos. É estranha: enigmática e transparente ao mesmo tempo. Seus lábios brincam  devagar como se estivesse soprando o ar. Que brincadeira!

Ai, minha voz! Ela tem que ser forte e doce simultaneamente. Efeitos de voz rouca e sexy saindo, é para já!!! Ai que vontade de comer uma sobremesa. Não é melhor, não,  engorda. – Garçom, por favor, um sorvete com calda de chocolate. Vou mostrar que não estou nem aí, que não saio por aí contando caloria.

Ah! Como eu queria ir para cama com essa mulher. Ela deve se entregar de verdade. Será  que ela está gostando do meu papo? Não quero bancar o historiador, cheio de datas e fronteiras.

Tenho que fazer esse sorvete parecer mais gostoso, misturar mais devagar a saliva da minha língua no creme branco. Ele vai olhar! Pronto. Olhou! Será que ele me deseja? Eu quero transar com ele, mas tenho medo dele não me ligar mais. Eu o quero agora, mas vou fingir que não quero o corpo dele dentro do meu. Ele é legal, culto, não é bonito. Tem umas manchas nas mãos, os olhos são arregalados demais, e a boca muito pálida. Ele fala meio fanho, mas até que é bonitinho.

Ás vezes ela me parece individualista, quase egoísta.  E que resposta foi aquela? Perguntei por que ela não tinha namorado no dia dos namorados. Ela respondeu que não consegue gostar de ninguém. Aposto que ela está com medo de se entregar com vontade. Também teria. Ela é meio convencida, na verdade, nem gostei tanto dela assim. Ela é muito convencida, mas que boca ela tem!

Vou falar que quero ir embora, que está tarde e tal. Que vontade de beijá-lo.

 Chegamos ao prédio dela. Que beijo gostoso. Ela suspira durante os amassos, será que não vai me chamar para entrar?

Parece que ele está  despedindo de mim, tão rápido o beijo dele, mas quente. Olhar estranho, não sei o que é. Ele quer o mesmo que eu? Não quero ir embora, mas não quero adiantar as coisas. Ai, essa mão na minha coxa, bem que ele podia subir os dedos um pouco mais.

Plaft, Plaft (barulho forte de portas do carro se fechando).

Amor avesso

novembro 10, 2009 by

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(por saia da dolores)  

Acordei com ele me fuçando por trás como nunca havia feito antes. Decerto alguma coisa muito grave havia se desprendido de seu passado, pois aquela leveza não era comum. Seu rosto de menino deslizava sobre minhas pernas e parava seguidas vezes até que eu pudesse sentir o calor da pele. Fiquei quieta todo o tempo. Achei que não saberia retribuir aquela ternura subitamente descoberta. Sua respiração quente entre as coxas ascendia um fogo líquido que devia ser contido e prolongado o quanto pudesse.

  Percebi que, de certo modo, ele chorava. Seus olhos estavam quentes e úmidos e seus lábios tão secos que aderiam à pele.  Seguidas vezes ele me lambeu por trás e eu senti um corte na alma por não saber reagir. Fiquei quieta todo o tempo, mas ele sabia que eu acompanhava cada movimento. Os músculos tremiam e repousavam, como se não soubessem se comportar. Aos poucos foram descontraindo. Senti minha pulsação aos saltos ali atrás. Parecia que queria retribuir os beijos que recebia. Foi quando não me contive mais e comecei a mexer vagarosamente com os quadris.

Ele apertava os lábios como se fosse me comer com a boca.A cada movimento, eu me erguia mais e me oferecia inteira aos seus beijos. Suas mãos subiam e desciam pelas coxas e pelas costas. Seu rosto subiu beijando e lambendo até o pescoço. Apertou os bicos dos seios e começou a penetração. Lenta e pausada, dolorosa e apaixonante. Senti a dor se espalhando como uma mordida por dentro. Cada movimento do corpo aumentava a penetração fazendo a dor ressurgir e transformar-se em prazer dilacerante. Sentia-me surrada ao contrário, amada ao avesso, lambida por dentro. Era como se quisesse beijar-me a alma e por isso tentava sucessivos mergulhos alucinados. Em tudo eu era cúmplice. Ergui os quadris e comi-o com gula, com uma fome insaciável. Gritei e comecei a gemer.

 As lágrimas brotaram no meu rosto. Ficava quieta para senti-lo deslizando para dentro e para fora. Depois me contorcia nas entranhas e gemia. Ele me puxava pelos quadris, com força, contra seu colo. Debruçava-se beijando as costas, primeiro vagarosamente, depois forte até morder espalhando a dor. Minhas lágrimas se desprendiam até arrancar soluços. Percebi que estava expulsando fantasmas que me acompanharam desde a infância. Fantasmas celibatários que agora se desmanchavam em lágrimas inofensivas. Expulsos pelo pecado. Ruborizados e impotentes fantasmas da infância. Soubesse antes o que suas máscaras ocultavam e já os teria enfrentado desde o primeiro dia.

 Chorei pela descoberta do prazer irradiado do ventre para os extremos. Pelo despertar do impulso animal que supera o medo. Pelo pecado que criei e que haveria de transformar-me continuamente. Chorei, gritei e amei até que ele explodisse percorrendo-me por dentro. Até que seu corpo desmoronasse em febre. E senti um amor doce e moreno, tão intenso e avesso que desconhecia os limites do medo.

Síndrome do Salvamento

novembro 3, 2009 by

GRVIDA~1

(por saia de bolinha)

O ônibus despejou aquelas miniaturas de gente na entrada do colégio. No mesmo momento, a gorda Janira, para limpar as vidraças sujas, equilibrava-se em um dos pedestais antigos do prédio da escola. Elvira, uma menina de apenas oito anos, ficava imaginando coisas. Fazia perguntas que ninguém gosta de responder. Depois do silêncio e do eco dos seus questionamentos, desfazia alguns cachos presos por presilhas coloridas e, sozinha, solucionava seus enigmas infantis.

– E se a Janira cair, tem chance dela não morrer?

– Ah, já sei, anjos vão descer dos céus, eles já fizeram isso antes. Eu vi.

Os meninos espalhados no pátio riam.

Elvira continuava a olhar Janira enquanto o sininho da diretora Cici tocava. Aquele era o aviso de que todo mundo do mesmo tamanho tinha que fazer uma fila antes de entrar na sala de aula. Enquanto meninos e meninas atropelavam–se para pegar os melhores lugares, Elvira não ligava de ficar na última posição.

Na sua cadeira, na sala de aula, enquanto os outros alunos desenhavam aviões, dragões e fábricas com chaminés e suas fumaças, Elvira gostava de debruçar a cabeça no colo e ficar criando estórias. Mergulhada em sua imaginação, afirmava que podia escutar árvores pedindo socorro dentro da madeira maciça em que o corpo se apoiava.

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Os professores, o vigia da escola, seus colegas de classe, todos a olhavam como se ela não se encaixasse naquele mundo. Elvira era mesmo diferente. Tinha um pescoço grande como o da avó. Seus cabelos às vezes acordavam lisos, outrora, cacheados. Sardas apinhavam no seu rosto, mais concentradas em uma bochecha que na outra. Mas os olhos eram como os das crianças na sua idade: querem ver tudo, as pupilas dilatavam-se para observar as coisas que os adultos acham saber.

Em casa, Elvira preocupava os pais. Não sabiam o que havia de errado na educação da filha. Elvira tinha a síndrome do salvamento. Mas, infelizmente, a psiquiatria ainda não sabia disso. Enquanto a empregada Maria José varria os cômodos, a garota sardenta a seguia. Conformada com as maluquices da menina, achava que a coitada só queria um pouco de atenção ou gostava de ouvir as músicas que trouxe consigo lá daquela cidade enterrada no meio do mapa.

Após a limpeza, Elvira abria o latão de lixo e catava tudo que achava triste ali dentro. Palitos quebrados, pacotes amassados. Em seu armário, o entulho ganhava lugar de destaque na prateleira, debaixo de suas roupas quentinhas. Tinha pena daquelas coisas serem descartadas assim sem mais nem menos. Precisava salvá-las. Ela se lembrou, em uma das suas inúmeras noites de insônia, que um anjo sem asas havia lhe dito que tudo tem alma no mundo: as plantas e os animais, por menores que sejam. Até os parasitas e o lodo que fica na cachoeira da fazenda da roça têm seu encanto de eternidade.

Enquanto isso, seus brinquedos novos continuavam intocáveis em dois baús grandes em uma estante de mogno claro embutido. Nem seu pequeno piano ganhava sua atenção. Elvira só gostava daquilo que dava dó.

Na rua olhava bem fixa para o chão, não queria pisar bruscamente em nenhuma flor vertical, em nenhum inseto piedoso fazendo o árduo caminho ou nas formigas suportando pedaços de folhas dez vezes maiores que seu peso. Os seus pés andavam delicados no caminho do dia-a-dia.

Aparecida (Formiga carregando 3 biscoitos !!!)

Elvira cresceu e as esquisitices de querer salvar o mundo também. Primeiro foi o lixo, agora era a vez dos pobres animais receberem seu socorro. Aos 13 anos, quase não conversava com ninguém. E quando o fazia era apenas para fazer perguntas incômodas. Passava a maior parte do tempo com os cães e gatos que havia recolhido na rua – muitas vezes esses apareceram do nada em sua casa, em caixas de papelão. A sua mãe não gostava de contrariar as caridades da filha única. Pobrezinha. A fama de Elvira havia se espalhado pelo bairro. Sempre tinha mais um lugar no canil para um belo vira-lata. As aves feridas pareciam reconhecer o caminho e voavam sempre para o pátio cinzento que Elvira cobria com grãos de arroz.

A analista de Elvira, uma tal de Márcia, não conseguia responder as interrogações da garota, que mais tarde acabaram virando suas próprias indagações. Tantas questões: os famintos na rua, os palestinos sem pátria, os brasileiros sem pátria, os moleques que rodeavam as montanhas de lixo, a camada de ozônio, os peixes atolados em manchas de óleo… os…

Aos 16 anos, virou ativista do Green Peace; salvou baleias. Mas não bastava… O mundo todo precisava ser curado e ela era só Elvira, a esquisita. Não dava para salvar formigas. O próprio ecossistema necessitava de aniquilamentos mútuos para a própria existência, a tal da cadeia alimentar, os hipopótamos que matavam seus filhotes, a própria seleção natural de Darwin: tudo fazia tanto sentido.

O mundo todo estava doente, mas não era sua culpa. No seu armário, ela só conseguia guardar papéis velhos e sonhos. Não podia salvar o mundo. E um belo dia descobriu isso. Não se revoltou contra Deus e o mundo imperfeito, as injustiças. Passou a ser que nem todo mundo. Acordava, planejava ter uma profissão e à noite freqüentava a mesma igreja da mãe. Escutava atenta as palavras do pastor. Não era mais esquisita; tornou-se mundana. Com a bíblia debaixo do braço, não pensava em salvar mais nada, apenas a sua alma.

O tédio, o relevante

outubro 27, 2009 by
tedioi
(por minissaia)
 
Já perceberam que quando se está entediado, ao mesmo tempo em que se quer fazer alguma coisa, nada parece te apetecer? Assim, sentir-se entediado em nada tem a ver com a falta do que fazer. Coisa para fazer, sempre tem. Mas elas sempre parecem irrelevantes, para não dizer chatas. Acho que isso acontece porque o tédio está relacionado com a ausência de motivação, não de atividades. Para acabar com o tédio não adianta começar a organizar a papelada do trabalho. Aliás, isso dá um sono…

Para se acabar com o tédio, só uma injeção de…como chama? A balinha dos depressivos? SEROTONINA!!! É isso. Estou entediada, tenho coisas para fazer, mas o que eu preciso é de uma dose de serotonina, de relevância, diversão, descontração, motivação, riso bobo, papo furado, cerveja a pampa, um pote de brigadeiro, mau-mau, show do Placebo, dormir em rede, nadar no mar, ver o pôr-do-sol, tomar banho de chuva, chorar no cinema, dançar de calcinha, gritar de susto, ouvir Billy Holliday, Nina Simone e Sarah Vaughn, comprar roupa, brincar com crianças, conversar com vó, fazer strogonoff, catar amora, jogar atari (!), entrar numa banda, “cair dentro” de um livro…

Conversar com estranhos, aprender a jogar sinuca, tomar capuccino, fumar um cigarro, parar de fumar, tomar banho de cachoeira, ir ao Trem Fantasma, zanzar sem rumo na UnB, pintar uma parede de rosa shock, tomar vaca preta, ver Sex and the City, transar no carro, pular corda, andar de bicicleta, sentar em calçada, ir trabalhar de chinelo, mandar alguém (que mereça!) se foder, pegar um caminho novo, dirigir sem engarrafamento, usar mini-saia, ser paparicada no salão, receber massagem no pé, reencontrar amigo das antigas, bisbilhotar no orkut, ver fotos de viagens, tirar fotos de besteiras, botar molho barbecue em tudo, brincar de gato mia, tomar coca light em rodízio de pizza, conversar ao pé do ouvido, guerra de travesseiro, brincar com cachorro, adotar um filhote, chamar mãe de amiga de “tia”, reclamar de velhice aos 25, ir em festa underground, fazer o inesperado, aceitar o imprevisível e viver….

Anjos no Inferno – ecstasy

outubro 20, 2009 by

 

Fear and Loathing in Las Vegas

Fear and Loathing in Las Vegas

 

(por saia apertadinha)

Chequei o meu bolso esquerdo. O ingresso para uma das maiores raves anuais de Las Vegas estava lá. No porta-moeda, amarrado na minha cintura, bem acima da calcinha glow e da cigarrete prateada, cinco êxtases se camuflavam. Nevada prometia receber as maiores celebridades dos Estados Unidos, o que significava um mexilhão de perucas de todas as cores e texturas. Era a festa dos anjos no inferno.

Carros buzinavam em todas as direções, inflamadas cilindradas e, apesar de haver  luzes suficientes na cidade para “aquela viagem”, feixes de néon saíam de possantes máquinas. Na porta da versão Studio 54, de Nova Iorque, mãos e braços me chamavam para dentro da Sodoma e Gomorra.   Tomei duas pílulas de “E”, cheirei um pouco de éter e tomei um special k, uma espécie de anestésico para pessoas ou, quem sabe, até pra animais. Ou seria o contrário? Sim, era o contrário. Ele é usado em cirurgias de cavalos, né? Talvez, nessa ordem meus amiguinhos foram ingeridos. Senti estilhaços de vidro a cortar todo o meu corpo, para  depois ser massageada, finalmente, por uma navalha. O efeito das drogas…

Jonny Depp como Duke

Jonny Depp como Duke

Duas strippers de um badalado night club da cidade faziam parte da decoração, tinham asas enormes e voavam em anéis elípticos. As penugens que escapavam de seus aparatos angelicais dançavam no ritmo trance dos djs. Pelo menos na minha cabeça. Anjos malignos. Todo mundo estava de branco. Eu estava de branco. Apenas minhas pílulas eram azuis e tinham um Buda desenhado. O Nirvana deveria estar próximo.

Tomei as outras três pílulas. Um dos meus companheiros parecia  um daqueles cowboys americanos e, mesmo com uma cabeça grande, usava um ínfimo chapéu com um medalhão prateado: “Hi girls”. Let´s party! Longe de parecer anjos, meus amigos lembravam duas galinhas com aqueles casacões peludos comprados em um brechó de Hillcrest. Eram as galinhas dos ovos de ouro. Foram eles que compraram toda a artilharia de drogas para o rápido metabolismo do meu corpo. Minhas mãos não paravam de fazer tornados em suas cristas.

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A decoração da festa me ajudava a não sentir mais meus pés no chão. O corredor que nos levava à pista principal parecia o túnel do tempo. Na minha cabeça, vinham números, datas estranhas e aqueles três pontinhos que aparecem depois das frases: um ano depois…três anos depois…um século depois… Em uma outra sala bem aconchegante, tive a impressão de estar entrando na Space Mountain, uma pequena montanha russa do Mundo do Mickey.   A intenção dos organizadores da festa eletrônica era fazer os pobres e drogados mortais se sentirem no paraíso. Contudo, falharam.  Os cometas tinham caudas seculares e asteróides não paravam de colidir com a terra. Se os anjos caíram do céu, as estrelas do arsenal decorativo foi o empurrão perfeito.

Não via nada. As luzes das estrelas e o laser davam curto circuito no meu corpo. Podia beijar meu novo ficante por horas, podia transar sem relógio, apenas com aquela camiseta de seda, para sempre.  Não havia transmissão de serotonina para nenhum neurônio receptor. Minhas mãos gozavam, meus dedos tinham orgasmos múltiplos. Aquele latino!

Depois de horas de toques eternos, o chão se abriu e, por alguns minutos, vi, bem ali, minha cova. Ela parecia tão confortável quanto os braços de Carlos. A terra que jogavam sobre o meu corpo era tão fértil e fofa. Vermelho e roxo eram as cores predominantes. Enquanto estava em meu túmulo, afóbica e atônita, as pessoas dançavam, sapatiavam correntes elétricas sob meu corpo quase em estado de putrefação, ou melhor, purificação. Rosas foram lançadas, e pensar que em vida era alérgica a elas. E agora, o que importa? Vou conseguir resolver as questões filosóficas?

Tive a impressão de estar sendo sugada para a estratosfera e um calderão me aguardava. Enquanto minha viagem não tinha volta, na mesa de som cinco djs competiam com notas psicodélicas. Por um minuto, a música pareceu com a batida do coração dos anjos. Eles seriam sacrificados e suas artérias entregues àqueles djs.

Voltei ao normal, queria dançar, girar, tocar meus cabelos enrolados, agora tão lisos, estralar meus dedos, colocar todos os meus sentidos a farejar. Ou a anestesia de todos eles seria melhor?

Precisava de mais pílulas, mas o puf não me deixava levantar.   Imaginei uma cachoeira de água cristalina. Perto, um copo azul reluzindo no meio de rochas negras. Bebi muita água e nadava nela dentro do meu corpo. Minha saliva estava sólida, mas pastosa. Ela dava nós na minha garganta. Iria morrer sufocada com meu próprio veneno. Mas, de repente, consegui tirar a mão para fora do caixão.

A festa estava vazia, nenhum rosto conhecido por perto. Vassoras gigantes começaram seu trabalho, lixo em todo lugar. Para estar em Las Vegas é preciso nascer e morrer todos os dias.

Confiram informações sobre o perigo de  uma balada regada à ecstasy no link: http://psyte.uol.com.br/aspx/redacao/textos/texto.aspx?seq=126

Sobre o assunto, recomendo o filme de Terry Gilliam e o livro de Hunter Thompson “Fear and Loathing in Las Vegas” (Medo e Delírio em Las Vegas).

Tato

outubro 16, 2009 by

Beijar sua boca
Deslizar meus dedos pelas suas pernas
Encostar meu nariz no seu rosto
Passar as mãos nos seus cabelos
Cravar as unhas nas suas costas
Apertar sua bunda
Lamber seu pau duro
Cruzar minhas pernas sobre as suas pernas
Sentir sua barba roçar minha barriga
Apertar sua cabeça entre meus joelhos
E molhar sua língua

Olhos nos olhos

outubro 14, 2009 by

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(Por saia rodada)

 Esta noite eu te desejo. Vou me preparar toda para você. Eu sei que gosta de me ver limpa e cheirosa. Depois deste banho quente e demorado, serei tua. Está bem na minha frente, como sempre desejei. Sinto seu cheiro, dos lençóis onde se deita e sonha. Ao se levantar sempre me olha, me deseja e me encara penetrando em minha alma. Hoje compreendi o amor que pode me dar. Então vou me vestir especialmente para que me dispa. Vou colocar uma lingerie confortável e excitante. Que me faça meio mulher, meio menina, como me sinto tantas vezes. Quero me sentir mulher pela sua imagem, isso me dará prazer.

Oscilo entre a dúvida das cores branca, vermelha ou preta, mas prefiro o branco para ressaltar minha própria candidez e dar um tom de leveza ao meu corpo. Visto uma camisola longa de seda, cor preta, pois quando me despir tirando a escuridão de mim me trará uma paz e prazer, que se encontrará na intimidade da cor do pouco que ainda me cobrirá a pele.

 Me deparo com sua imagem, e te olho, admiro esta beleza que reflete em minha alma e no meu corpo que começa a se eriçar. Só de vislumbrar me sinto bem com a beleza do corpo que me olha também. Sinto a pele se arrepiar como se fosse frio, e os poros criam pontinhos protuberantes na pele, os bicos dos seios se enrijecem como dois diamantes levemente róseos, e sinto-me molhada onde mais desejo que me toque, com um pulsar lânguido, onde o corpo faz osmose com o desejo.

E olhando profundamente, penetrando-me com os olhos, vejo que vem a mim como saindo de um refúgio ou uma prisão, rompendo barreiras para penetrar em minha pele, inicialmente acariciando-a com uma maciez experiente de quem sabe onde, como e quando tocar. Levemente encosta o dedo no lábio inferior, que seco é umedecido  pelo leve encostar da língua, que logo avança, rodeia e percorre o dedo e os próprios lábios. Então a mão desbrava leve e suave por pontos de meu rosto, descendo pelo pescoço acaricia minha nuca, levanta e se crava por entre os cabelos, toca os ombros, desce mais e sente a maciez enrijecida de meus seios, brinca com meus mamilos, que quase se encontram com o pressionar da outra mão, que agora percorrem juntas meu abdome lateralmente, se encontram em minha barriga e se demoram acariciando o ventre. Descem rapidamente, as mãos acariciam minhas pernas, sentem minhas coxas, afagam meus joelhos, e lentamente sobem, como uma escada que leva ao céu, mas encontrou na verdade o paraíso. Agora são os dedos que se atrevem, viajam, dançam. Lascivamente sinto como se aqueles dedos se derretessem, dentro de mim e junto de meu corpo, que já transpirava, e ofegava, pelos movimentos que eram hora lentos, hora rápidos, fortes, circulares e penetrantes.

Eu estava por entre eles. Por entre os dedos sentia minha vida evaporar. Refletiam todo o meu desejo, e na imagem de quem me possuía senti-me completa. Não preciso de mais ninguém. Já sofri muito, mas um dia tentarei novamente. Agora, porém, você me basta. E explodo num grito, que nem fiz questão de abafá-lo, pois aquele toque me conhecia tão bem e me  fez sentir a maior de todas as sensações. Fechei meus olhos e não mais o encarei, apenas senti meu corpo. Desfaleci ofegante com as mãos na parede e voltei a contemplá-lo. Eu me olhava. E me bateu uma angústia, uma sofreguidão. E as lágrimas vieram.

 A solidão dói. Mesmo que este espelho reflita a imagem de quão bela eu sou, e o quanto esta alma que se reflete deseja amar, sentir e fazer amor. Narcisista morrerei pela ambição de minhas próprias mãos solitárias. Eu preciso de um amor-ser de verdade. Parar de fantasiar, e sozinha me proporcionar prazer, que busco tão  perdida no meu  medo de amar, tentar, sofrer novamente. Sozinha não consigo viver, por mais que eu me sacie comigo mesma. Dou um beijo no espelho e novamente volto profundamente a olhá-lo. Então, agradeço por me fazer entender que a minha imagem somente não basta.

 

 

Como se fosse a última vez

outubro 7, 2009 by

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(por saia de pregas)

Saiu decidida a não deixar que ele a tocasse nunca mais. Aquelas mãos ásperas não chegariam perto dos seus seios de bicos rosados novamente. Não queria mais se curvar, se ajoelhar, se deitar. Com aquele homem, naquele lugar sujo, ela não faria mais amor nem sexo.

Abriu a porta de casa e o cachorro a farejou inteira. Sentiu nojo de si mesma. Ligou o chuveiro e entrou de roupa, óculos, sapatos. Lágrimas escorreram junto com a água quente que caía sobre sua cabeça. Soluçava feito criança. Lembrou do sexo rápido de sempre, sem antes nem depois, sem gosto nem vontade. Esfregou com força a bucha com sabão sobre as roupas, o corpo. Cuspiu no chão. Queria tirar qualquer lembrança dele de dentro de si.

Aos poucos, os soluços cessaram e ela se acalmou. Tirou, enfim, a roupa. O banho ficou agradável. As lágrimas tinham lavado sua alma, suas entranhas, e agora podia aproveitar a água e o sabão e o xampu como sempre. Gostava de se demorar no banho. Passou o sabonete e se enfiou novamente embaixo d’água. A água limpava seu pescoço, a barriga, as pernas. Tirou toda a espuma bem devagar com a ajuda das mãos, percorrendo todo o corpo.  Tocou seus seios levemente. Imaginou sentir um prazer diferente daquele de uma hora atrás. Mas foi tão bom quanto as vezes em que o homem de mãos ásperas a tocava com menos delicadeza.

E se lembrou dele. E, em vez de nojo, sentiu uma vontade enorme de que ele estivesse ali, no banheiro, com ela. Desceu as mãos até um monte de pêlos, que na verdade eram poucos, aparados com tesoura, para dar aspecto de limpeza. Seus dedos se perderam entre pêlos, pele, nervos, um buraco sem fim. Imaginou que era ele ali, apalpando-a sem jeito, penetrando-a com força. A respiração ficou mais rápida. Rápida, cada vez mais rápida, ofegante. Gemeu. Quase gritou. Com um sorriso nos lábios, calou-se.

Desligou o chuveiro e foi para o quarto. No celular, uma mensagem: “Quero de novo”. Respondeu: “Hoje à noite, no lugar de sempre”.

Recital na mata

outubro 2, 2009 by

fazenda 

 

 (Por Carla Andrade )

Menina vive a cutucar
poesia nos bichos do arraiá.

Oferece os dedos como cacimba
para um filhote de tangará.
Como água de açude mole,
aninha cotia enquanto toma gole
de chuva de jatobá. 

E no miolo dos olhos da menina, a treveliar,
vive uma girina buchuda e
um piolho de caburé sem calcanhar.

 E no pé do ouvido da danada
canta  sabiá adestrado,
assobia ar de cigarra,
enquanto bicho de pé  fica embuchado.

 De noitinha, na distração com os bichos,
grilo faz birra para pular 
e seriema desfila pernas antes de banhá.

Menina se veste de lamparina,
muito vagalume engradado.
Assanha morcego e aranha
debaixo de romaria de estrelas.

 Depois que descansa machado
no canto da sombra de uma goiabeira,
depois que desmancha farinhada,
no canto da sua língua faceira,
sobra tempo para mais brincadeira. 

Agora, dorme machado, dorme flor de sucupira,
amanhã tem mais poesia.
Dorme menina prenha de sabedoria,
 alumiada de mata.